Da Arte do Improviso ou “Ir-pro-riso”

“Causo” da entrevista para vaga de corretor




No meu relógio são 18h30 e estou cansado e prestes a fazer a última das 14 entrevistas com os candidatos à duas vagas de corretor que estavam disponíveis.


Solicito a secretária que o candidato da última entrevista entre…


PCX: – Boa noite! Tudo bem?

Candidato: – Tudo tranquilo. Adorei a imobiliária!

PCX:Está falando da recepção? rsrsrs Já começando a nossa entrevista… O que o trouxe a Ximenes?


E, daí em frente, aquelas perguntas tradicionais como por exemplo: disponibilidade, interesse em vendas, formação, se possui meios para poder exercer a profissão, se gosta mais de exatas ou humanas, hobbys, o que espera da empresa, expectativa de ganho mensal, casado ou solteiro, filhos entre outras.


Até esse momento a entrevista estava correndo muito bem – e de certa forma, eu perguntando e ele respondendo, tudo dentro da normalidade.


Na sequência eu começo a explicar um pouco da natureza da profissão e das regras da empresa… Quando resolvi perguntar, aquelas que para mim, estão dentre as mais importantes:


PCX: – Você já teve alguma experiência na área de vendas? Quando? Durou quanto tempo? Quais empresas? Você tem CRECI? Me fale um pouco da sua experiência nessa área, da forma que julgue ser a mais adequada, mas sem entrar em muitos detalhes. Não temos essa necessidade no momento.

Candidato: – Veja bem… Você quer dizer com imóveis?! Minha experiência é zero! Agora, posso lhe garantir que sou um ótimo vendedor. Doutor, já vendi muito CD… Sabe, CD de música?!

PCX: – Sim, meu amigo. Você já trabalhou em lojas que vendem CDs de música?

Candidato: – Quase isso… É… Vou explicar! Um familiar meu tinha uma loja e faliu. Ele distribuiu na casa dos amigos e familiares todo o estoque da loja… E lá em casa, acabamos ficando sem um quarto… Ele deixou mais de 10 mil CDs de música, dos quais uns 5 mil eram do Rei.

PCX:O Rei de que você está se referindo é o Rei Roberto Carlos?

Naquele segundo, lembrei do último CD da época do Rei que vinha com uma pena na cabeça e emeidei o comentário:

PCX:Vocé deu sorte… Roberto vende bem.

Candidato: – E como vende… Me salvou!

Ele ia continuar a falar, mas interrompi e perguntei:

PCX: – Não consegui ainda visualizar essa sua experiência na área de vendas… Pelo que entendi… Vamos com calma, você tinha um monte de CDs jogados em casa dentro de um cômodo… As gravadoras estavam passando por um sério problema com essas questões de pirataria e o advento da internet que também deve ter contribuído com a piora desse ramo.

E pergunto:

PCX: – Me explica melhor isso?

Candidato: – Doutor, dei muita sorte. Vou lhe contar… Quando tem que dar certo dá mesmo, né?! Era um sábado, véspera de feriado. Eu e minha namorada estávamos em casa, tomando café e lendo jornal, chateados porque não tínhamos dinheiro para viajar. Foi nessa hora que o jogo virou! Doutor… Nem te conto!

Eu o interrompi pedindo, pela quinta vez, para que ele retirasse o “Doutor”… E ele prosseguiu.

Candidato: – …Paulo, na minha cara, o jornal gritando e me chamando, com um anúncio, bem grande…de quem? Show do Roberto Carlos naquela noite no Canecão (na época, a melhor casa de shows do Rio). Foi aí que eu pensei e disse para minha namorada:

Candidato para namorada: – Pode fazer as malas que amanhã de manhã nós iremos para Saquarema.

Namorada do candidato: – Como assim? Está maluco? Com que dinheiro?

Candidato para namorada: – Deixa comigo! O Roberto Carlos vai nos salvar.

Nesse momento, eu confesso, que eu possuía toda a curiosidade do planeta. E, silenciosamente, fiquei aguardando “junto com a namorada dele” como ele resolveria tudo.

Candidato: – Doutor… Desculpa, Paulo, enchi o banco do carona, o banco de trás e a mala da minha Brasilia com os CDs do Rei e parti para o Canecão. Não dava pra ver nada pelo retrovisor… Detalhe, só tinha a gasolina da ida… Cheguei ao Canecão duas horas antes do show para sentir o clima e com uma hora estava tudo organizado. Quando eu ouvisse lá de fora a música “Detalhes”, que era a penúltima música do show, o segurança iria me liberar para subir na calçada e estacionar o carro no local da saída do show. Pronto! Dito e feito. Quando o Rei acabou de cantar “Detalhes tão pequenos de nós dois…” minha Brasília estava parada com a mala aberta e virada para onde – para todo aquele fluxo de pessoas que seriam obrigadas a passar justamente ali – coladas no meu carro. Paulo, e para melhorar escrevi bem grande em um cartaz pequeno:


“CDS DO REI ROBERTO CARLOS. PROMOÇÃO: UM POR R$ 9,00 E DOIS POR R$ 15,00.”


Confesso que nessa hora ele já estava com a vaga do estágio garantida…


PCX: – Então… E aí, arrebentou? Vendeu tudo?


E o candidato rindo respondeu:


Candidato: – Vendi tudo Chefe! Se tivesse mais tinha ido embora também.

PCX: Mas conta… Como?


E ele voltando com o “Doutor” respondeu dando gargalhadas:


Candidato: – Doutor, as pessoas chegavam e perguntavam pra mim …

” RAPAZ, ESSE CD É DO SHOW?”


E eu respondia na hora …


“SIM SENHORA. SÓ PEÇO UM FAVOR PARA A MADAME… FALA BAIXO QUE AINDA ESTÁ GRAVANDO.”


Nesse instante, a entrevista era só gargalhada… Até hoje, como agora rsrs quando lembro eu dou risadas.

E saibam que eu já contei isso – 1.000.000 de vezes… HAHAHAHAHAHA


Então, disse finalizando exausto, mas feliz porque sabia que tinha encontrado um excelente candidato, um diamante:


PCX: – Amigo, pela sua capacidade de improviso, resiliência, bom humor, criatividade, disposição, simpatia…você vai colar no nosso gerente 60 dias, dar entrada no CRECI e ser feliz na Ximenes. Me dá aqui um abraço – a vaga é sua!!!


O “Fulano” até hoje é meu amigo e um dos melhores profissionais que eu conheço.

Espero que vocês tenham gostado desse “causo” e que tirem, como até hoje eu tiro dessa história, além de risadas, algumas preciosas ensinanças.


Bjos e Abs.

PCX

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